
Em entrevista ao Diário Económico de 01/03/2011 e sobre a reunião entre Angela Merkel e José Socrates, o Deputado Europeu e Vice-Presidente do Partido Popular Europeu Mário David afirma que ?não é por acaso que Sócrates é o único líder internacional a ir a Berlim?. Mário David diz que o comportamento de Sócrates faz lembrar o "orgulhosamente sós de outros tempos" e que, ao adiar um pedido de ajuda internacional, "é o povo português que está a pagar". "Diariamente". Conheça a entrevista na íntegra.

O Governo português continua a garantir que não precisaremos de ajuda internacional. Acredita que será possível?
Não acredito. Lamento profundamente que o povo português esteja a pagar diariamente pela teimosia do primeiro-ministro. Mais dia menos dia vamos ter de recorrer ao Fundo Europeu de Estabilização e ao FMI, mas como Sócrates vê nisso uma derrota pessoal, prefere que Portugal pague juros mais altos no mercado do que pagaríamos recorrendo a esse mecanismo. Sócrates acha que basta anunciar novas medidas de austeridade, mas já se provou que não é verdade. Faz lembrar a teoria do "orgulhosamente sós" de outros tempos. Não é por acaso que Sócrates é o único a ser chamado a Berlim antes do encontro da eurozona.
A Alemanha tem revelado muitas reticências quanto à reformulação do fundo de estabilização europeu de forma a permitir a compra de dívida dos países da UE. As coisas ainda podem mudar?
A Alemanha está cansada de pagar os devaneios de alguns governos, nomeadamente do português. Merkel foi a Madrid mas manda o primeiro-ministro português ir a Berlim. Parece a directora da escola que manda o aluno mal comportado para lhe puxar as orelhas porque pode expulsá-lo da escola. Receio que o dito aluno regresse na quarta-feira de semblante carregado.
Conhece bem Angela Merkel. Vai forçar Portugal a pedir ajuda externa?
Exactamente. A Alemanha não percebe como é possível que Portugal continue, contente, a colocar dívida a mais de 7% quando poderia, no máximo, estar a colocá-la a 5,8%. É fruto da teimosia do primeiro-ministro. Não compreendo dois pontos: o Estado não tenta captar as poupanças portuguesas e passa a vida a pedir que seja a banca portuguesa, que se está a financiar no BCE, a adquirir a dívida pública.
Portugal continua a opor-se à colocação de um limite ao défice na constituição. Quem vencerá o braço de ferro?
Acho um disparate a existência de limite ao défice na Constituição. É preciso ver que existem situações conjunturais que podem fazer derivar o valor do défice.
As agências de notação financeira - S&P e Moody's - estão a reavaliar o ‘rating' da República, os mercados continuam a cobrar taxas acima dos 7% e o Governo não alcança qualquer entendimento estável com nenhum outro partido. Devemos ter eleições?
Se continuar o desvario do Governo não acredito que a legislatura chegue até ao fim. O FMI também não aceita ir para países com governos minoritários, sem a garantia de que as medidas serão aprovadas pelos parlamentos nacionais. Os nossos credores não se deixam embalar porque a execução orçamental em Janeiro foi "óptima"... E a aposta no TGV deixa os nossos credores apreensivos. Não quer dizer que não seja necessário mas quem não tem dinheiro não tem vícios.
Ao dizer que está tudo preparado para Portugal recorrer a ajuda financeira da União Europeia, Durão Barroso abriu a porta ao resgate ou é uma declaração apenas para acalmar os mercados?
Julgo que está a fazer as duas coisas. Enquanto presidente da Comissão dá o sinal de que a UE tem os meios suficientes para auxiliar os países em dificuldade.
Mas abre ou não a porta a um pedido de ajuda internacional?
Mais uma vez enquanto presidente da Comissão está a dar voz ao sentimento generalizado de que Portugal já deveria ter pedido ajuda.
in Diario Económico (Francisco Teixeira) 01/03/2011











