
O EuroDeputado Mário David regressou esta semana do Egipto, onde esteve integrado numa Missão do Partido Popular Europeu, do qual é Vice-Presidente. No seguimento desta Missão, o Jornal "SOL" de ontem, publicou um artigo de opinião do Eurodeputado do PSD, intitulado "Egipto: a revolução vai (re)começar.". Conheça o teor deste artigo de opinião, na íntegra:

Egipto: a revolução vai (re)começar
Nos países abrangidos pela Primavera Árabe, a notícia de manifestações de maior ou menor dimensão depois das orações de sexta-feira passou a ser um lugar-comum. Mas acabado de chegar do Egipto receio que hoje, no Cairo, volvidos seis meses do início da revolução de 25 de Janeiro, vamos provavelmente testemunhar algo de diferente.
E, mais grave, arrisca-se a ser o princípio de um múltiplo divórcio: entre o povo e as Forças Armadas e entre os revolucionários da Praça Tahrir divididos entre islamistas e liberais (para usar a terminologia local).
Desde a sua génese, a revolução espontânea dos jovens egípcios no seguimento dos acontecimentos na Tunísia não teve um líder, e o vazio de poder quando da partida de Mubarak a 11 de Fevereiro foi ocupado pelo Conselho Superior das Forças Armadas (o SCAF).
Todos os seus membros são oficiais superiores que serviram Mubarak que, usufruindo do tradicional prestígio das Forças Armadas, chamaram a si os poderes presidenciais. Gratos aos manifestantes por terem impedido a instauração de uma dinastia na Presidência da República ao afastar o filho Gamal duma sucessão, sacrificaram à ira dos revolucionários a odiada polícia e alguns ministros e outros destacados agentes políticos e económicos (muitas vezes com uma fronteira difícil de definir), que são presos.
Meio ano depois as condições sócio-económicas degradaram-se! E por muito grande que seja o apreço pelos militares, não é menos verdade que controlam cerca de 30% da economia, facto a que não é seguramente alheia a legislação publicada no princípio do mês proibindo a sua perseguição judicial mesmo depois de abandonarem o activo!
O seu comportamento “político” consegue não agradar nem a islamistas nem a liberais: no calendário eleitoral optaram pela sequência favorita dos islamistas; na legislação eleitoral não agradam a ninguém; a morosidade da justiça, em particular o nada ter sido feito relativamente aos responsáveis pelas 850 vítimas mortais da revolução, e a ausência de reforma do aparelho securitário, exasperam toda a população.
Entre os jovens é enorme a frustração, que se transforma em indignação e raiva quando sábado passado, fruto do clima de tensão e desorientação, o SCAF divulga pela voz do General El Roweiny uma Declaração em que se refere aos líderes do Movimento 6 de Abril e do Kifaya como traidores a soldo de uma potência estrangeira, … a Sérvia!
O sentimento de suspeição que começa a imperar, e que a intervenção do General Al-Assar amplificou esta semana, é de uma crescente aproximação entre o SCAF e a Irmandade Muçulmana.
Mas a razão porque os islamistas mobilizam hoje 5 milhões de manifestantes é a proposta do SCAF de introdução na Constituição de um número limitado de normas supra-constitucionais, perenes e imutáveis, relativas aos direitos humanos em todas as suas vertentes e às relações Estado-Religião.
Em causa está a formação de uma sociedade democrática e tolerante, em que as Forças Armadas se tornam garantes de um Estado Secular.
A revolução continua…ou, talvez melhor, vai começar…
Mário David
Eurodeputado PSD
Presidente Delegação do Parlamento Europeu para o Egipto











